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quinta-feira, 27 de agosto de 2009

A Lua e o Monstro II



Essa estória que agora vos conto não é para qualquer um. É para aqueles cujo coração já foi aquecido ferozmente pelas chamas de um amor impossível ou pelos dardos inflamados de uma paixão mal resolvida. Se você nunca passou por isto, então não perca seu tempo dando continuidade a esta leitura. Leia o horoscópo, o episódio da novela de hoje ou as fofocas do mundo artistico que vai ser bem melhor.
Se está lendo está linha agora então tenho que lhe dizer: sinto muito, você é tão tolo quanto eu. Não é possível arrancar o coração e talvez você tenha que conviver com este este tolo para sempre. Mas, vamos ao que interessa: a estória. Pensei em começar com “Era uma vez”, mas acho meio piegas e comum demais. Coisa de contos de fada, não é verdade? Então, vamos lá. A estória começa agora.
Era uma vez, em um lugar aqui pertinho, onde todo mundo conhece e já está cansado de passar por lá, por isso vou nem dizer onde fica, costumava-se ouvir gritos que rasgavam o silêncio da noite. Ninguém saberia dizer de onde e de quem eles vinham. Eram tão costumeiros que já faziam parte da rotina noturna. Ninguém sabia que ali, logo ali, pertinho, havia uma criatura assustadora. Um monstro. Sim, um monstro com tudo o que tem direito. Feio, assustador, gosmento, mal cheiroso e agressivamente descontrolado. Mataria sem pensar a qualquer um que cruzasse o seu caminho. O Monstro ficava preso todas as noites, era sedado para que não tivesse força suficiente para romper as correntes que o prendiam.
Mas certo dia, ou melhor, certa noite, a genitora da tal criatura, compadecida, resolveu deixar frouxas as amarras. Não é difícil imaginar o que aconteceu. No primeiro ímpeto de força na tentativa de fugir, as correntes cederam e facilmente o Monstro soltou-se. Ele rugia alto, batia forte contra a porta a fim de quebrá-la e quando conseguiu, correu alucinado pelas ruas até se dar conta de um brilho suave que o atraia lá no céu.
O Monstro sentiu esvair de dentro dele toda a raiva contida. Sentiu uma paz que o fez parar e questinar a própria existência e atitudes. Nunca vira algo tão belo, tão suave, tão puro. Ele ergueu as mãos na tentativa de agarrá-la, mas logo percebeu que não era possível. Sentiu a raiva possuí-lo novamente. Rugiu furioso enquanto corria em direção a algum lugar que o permitisse alcançar a Lua.
As pessoas olhavam curiosas entre as cortinas das janelas de suas casas a fim de saberem o que acontecia lá fora. O Monstro estava à solta. Ele subia em árvores, nas cumeeiras das casas, nos postes, em todo lugar que julgava deixá-lo mais próximo da Lua. Foi da montanha mais alta, na verdade a única, da cidade onde o Monstro suspirou aliviado ao estar tão perto e ao mesmo tempo tão longe de sua amada. Dentro dele pulsava uma paz que emanava sei lá de onde, talvez de sua intríseca essência que era, na verdade, tranquila e amável. Sentou-se. Respirou fundo. Movimentou as mãos como quem intenta agarrar algo em vão. Apreciou o intenso luar ali, cativo, totalmente entregue, rendido. O Monstro percebeu que a cada instante a Lua fugia de sua presença. Sentiu-se feio, repugnante. Ela jamais o aceitaria desta forma, pensava. A cada segundo mais distante, uma claridade ainda maior se evidenciava no céu agora não tão escuro. O Monstro rugia desesperado até que a Lua tornou-se Sol e sufocou-lhe os gritos assombrosos . A luz do dia revelou uma criatura indescritivelmente bela. Um ser divino estava assentado ali naquela montanda, sem entender exatamente o que estava ocorrendo. Era assim a vida de Monstro: à noite, um ser horrendo e pela manhã, um anjo do céu.
Desde então, Monstro passava o dia traçando planos mirabolantes que logo, logo, sob as trevas do luar, constataria que eram falíveis. Impossível alcançar a Lua, concluiu. Não há nada que se faça que seja realmente digno de sua aceitação. Monstro queria que a Lua o notasse, percebesse o quanto ele a amava e a desejava. Mas como poderia ela, tão linda, tão pura, tão sublime, perceber a existência de uma criatura tão nojenta e desprezível? Monstro odiou-se. Se pelo menos ela o visse quando o Sol reinava, veria que por trás daquele Monstro existia um ser formidávelmente irresistível e apaixonante.
Depois de muitas tentativas vãs, Mostro percebeu que a única coisa a fazer, já que não poderia tocar a Lua, era contemplá-la, apenas. Todas as noites ele deitava-se no cume do monte e flertava com a Lua, embora esta não desse muito a mínima aos seus gestos tão singelos. Monstro adormecia no local e só era despertado no raiar do sol que levava a sua amada deixando-lhe afogado em saudades.
Daí Monstro teve uma ideia. Levou na noite seguinte uma fotografia de como ele era de verdade, uma rosa e um lindo poema feito por ele mesmo. A resposta da Lua? Nenhuma. Indiferença. Ela ficava lá em cima, só brilhando, imóvel, governando as emoções alheias, atraindo a todos com sua infidável beleza. Totalmente às margens de um amor sincero que logo ali embaixo se transbordava.
Certa noite, algo diferente e muito curioso aconteceu. Durante todo este tempo, Monstro conversava com a Lua em sua linguagem nada compreensível de grunhidos. Monstro chorou, chorou amargamente. Suas lágrimas inundaram o lugar. Em seu coração ardia em chamas um amor que nunca seria possível. Monstro não via mais sentido na vida. Entre lágrimas seu grunhido converteu-se numa linda voz que dizia: “Não vejo mais cores, somente o teu brilho. Nada tem sentido à minha volta a não ser a tua presença. Você me trás paz. Sinto-me diferente. Sou impulsionado a mudar. Se pelo menos você pudesse enxergar o que há dentro de mim, veria a si mesma enraizada em meu ser.”
A Lua brilhou diferente, parecia que aquelas palavras haviam lhe tocado, afinal. Uma luz divina tomou conta do lugar. A Lua percebeu que havia algo mais importante do que aquilo que o Monstro aparentava ser: o amor que ele sentia. Ela percebeu o quanto ele era belo e a forma sincera como Monstro demonstrou o seu amor tornou-se para ela a coisa mais importante do universo. Então, a Lua o amou sobre qualquer circuntância e o seu brilhar trouxe à tona não um monstro, mas o ser divino que só o Sol até ali contemplava. Ele foi absorvido, transportado para o interior dela e até hoje ele está lá, preso alegremente dentro do seu amor. A Lua hoje não vive só e pode saborear o gostinho delicioso que é ser de alguém.

Juliana Duarte, 27 de Agosto de 2009

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