A noite fria ainda reinava sombria aquela pequena aldeia quando um choro agudo, feito agouro dos que não vivem, rompeu o rotineiro silêncio e ecoou mata adentro, perpassando cabanas, almas e espíritos dos que lá habitavam.
Ninguém, por aproximadamente uns cinco minutos, teve a coragem de abrir mão da segurança do seu lar para verificar o que ocorria. Será que os deuses haviam decidido castigá-los? Seria o final dos tempos? Afinal, que grunhidos eram aqueles que faziam saltitar o coração de todos, de modo a deixá-los de cabelo em pé?
Vendo que nada de extraordinário acontecia, Esglinof Jafaéh resolveu sair de sua cabana, mesmo sob as especulações horríveis de sua esposa e filhos do que poderia lhe acontecer, e procurar a origem daqueles sons estarrecedores.
Jafaéh penetrou mata a dentro, seguindo o som. Ba-ra-ra-tim-bum. Ba-ra-ra-tim-bum. Ba-ra-ra-tim-bum. Quanto mais entrava na floresta, mais forte ficava o som e misturado a ele, o grunhindo agudo incessante. O bater de seu coração estava cada vez mais forte, de modo que o confundia com o som ouvido.
Jafaéh percebeu uma claridade forte e estranha vinda do interior da mata. Parou de correr. Ele ofegava cansado. Já não sabia mais distinguir o batuque forte com as batidas do seu coração. Aproximou-se vagarosamente, escondendo-se entre as folhas da árvores. O agouro fino e pertubador agora lhe parecia familiar. Deu mais alguns passos e viu, agachado entre os arbustos, uma pequena cratera que ainda conservava algumas chamas e faíscas. A cratera alongava-se numa espécie de caminho, como se algo estivesse sido arrastado com dificuldade. Jafaéh olhou para os lados. Não havia ninguém, nenhum sinal de perigo, embora a própria circunstância o fosse. Em passos vacilantes ele caminhou rumo à cratera. Ba-ra-ra-tim-bum. Ba-ra-ra-tim-bum. Ba-ra-ra-tim-bum... A forte luz o fazia apertar os olhos escuros na vã tentativa de enchergar melhor. Avistou algo embrulhado. Algo pequeno, de aparente indefesa. Jafaéh, com uma vara, descobriu o embrulho revelando o que ele já suspeitava ser. Uma criança de pele mui branca chorava desesperadamente. Um bebê de aproximadamente seis meses. Jafaéh assustou-se de início, mas logo tratou de colocá-la nos braços e, ao fazê-lo, imediatamente o batuque cessou e a esfera fechou, tornando-se uma coisa só. “É coisa dos deuses”, concluiu . Por tanto, tratou de pegar a esfera, mas esta estava muito quente e lhe deixou uma queimadura quando a tocou. Com o lençol que envolvia o bebê ele cobriu a esfera e a pôs nos braços.
Jafaéh correu em direção à sua cabana. Vez por outra ele parava a fim de contemplar a criança que agora dormia um profundo sono. Nem parecia que há poucos instantes estava chorando ensurdecedoramente. Nunca vira algo parecido! “Essa criança será filha dos deuses? Caiu do céu?” – pensava intrigado.
Quando chegou à aldeia, todo o seu povo estava à espreita, fora de suas cabanas, aguardando seu chefe chegar para saciar a curiosidade de todos. Sua esposa o olhava estarrecida, parecia gritar sem que som algum saisse de sua boca. Seus filhos correram em sua direção para verificarem o que seu pai segurava. As pessoas ao redor aproximavam-se cautelosas e, como o sol que aos poucos se impôem à escuridão, Jafaéh ergueu o menino no ar de modo que todos puderam vê-lo. Palavra alguma fora mencionada e nem era preciso porque a expressão de seus rotos dizia tudo.
A brancura da pele da criança contrastava fortemente com a pele negra daquele povo. Ainda erguido no ar, o bebê abriu os olhos e estes refletiam o céu como um amanhecer. O povo assustou-se àquele olhar. Muitos soltaram um suspiro de terror, outros correram apressados às suas cabanas enquanto outros apenas levaram a mão à boca por simplesmente não terem coragem de fazer absolutamente nada. Nunca tinham visto nada igual!
“O esquisito”, “o enviado”, “o filho dos deuses”, “demônio” eram alguns dos muitos nomes dados ao garoto e estes refletiam as divergentes especulações sobre ele. Para uns, o chefe da aldeia fizara certo em acolher aquela criança e cuidar dela como se fosse um filho porque esta era fruto do divino. Outros, no entanto, acreditavam ser aquele bebê uma maldição que deveria ser eliminada imediatamente antes que trouxesse desgraça ao povo. Divergentes ou não, o fato é que todos o olhavam com desprezo e indiferença por não ser igual a eles. E de fato ele era. A comunidade de Jafaéh era negra enquanto a criança, esta era de uma brancura formidável; tinha os cabelos mui loiros e os alhos azuis.
O menino cresceu no lar de Jafaéh e foi tratado como um filho por ele. Somente por ele. Isso por acreditar que o menino era um presente dos céus, um aviso dos deuses. Jafaéh deu-lhe o direito de primogênitura, onde a benção maior e a consequente suscessão fora retirada de seu filho unigênito e dada à “criatura branca” ou “ ladrão de benção” como era chamado por Hafta, esposa de Jafaéh.
O menino teve os mimos de seu pai, Jafaéh, mas este nunca lhe contara a misteriosa forma que fora encontrado e proibira todo o seu povo de mencionar algo a respeito, sendo a morte a pena pela infração de tal ordem. Por mais acolhedor e reverente que fosse o pai da criança branca, este ainda assim sentia-se sozinho, perdido no meio de muitos. Era nítida a diferença de cor entre ele e os outros. O menino se sentia desprezado, completamente às margens daquela tribo. As pessoas o olhavam com repugnância e quando o olhavam! Pois muito desviavam dele o olhar. O garoto sentia-se portador de uma doença maléfica, contagiosa; um tipo de praga a qual ele não pediu pra ter. Não queria ser tão diferente dos outros. Queria ser igual a todo mundo.
Foi com esse anseio que o Menino pintou-se de preto dos pés à cabeça. Ridículo, um insulto - era o que as pessoas falavam ao cruzar com o “Novo Negrinho de Olhos Azuís”. Ele corria até o rio afim de ver seu reflexo na água. Um garoto triste e inconformado consigo mesmo era o que sempre contemplava. “Por que sou desse jeito?” – pensava repugnando-se. “Queria poder escolher, assim pediria pra ser como eles”, concluia. E ali, à beira-rio, derramava suas lágrimas e questionava os deuses.
Jafaéh, por muitas vezes flagrou o Menino raspando a pele com gravetos ou lascas de pedras na tentativa de “arrancar” o branco de sua pele. Seus consolos e argumentos de que ele era especial não satisfaziam ao Menino. Ele queria, pelo menos uma vez na vida, se sentir bem vindo, se sentir em casa. Mas as pessoas insistiam em fugir dele como se fugissem de um leproso ou a olhá-lo como se olhassem um monstro perigoso que os atacaria a qualquer momento. Como se sua beleza divinamente atraente nada mais era que uma estratégia para lhes imobilizar e ferir sem que pudessem se defender.
Sangue, sangue e sague era o que sua pele, em vão cortada, revelava. Logo sarariam as feridas e trariam de volta a sua cor. A cada golpe, a cada dor que lhe atravessava a’lma ele foi percebendo que jamais conseguiria macular sua essência, que jamais alteraria o seu ser. Pecebeu que não era diferente assim, porque por baixo da pele todos eram iguais, sangravam. Não era mais um monstro, um desconhecido de si mesmo. Não importasse o que pensassem ou falassem dele, Moriá – nome que lhe fora dado – encontrou uma paz inenarrável, uma felicidade plena que independia dos conceitos de outros.
Juliana Duarte, 29 de Março de 2009

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